Lucien Finkelstein

Quadro: Helena Coelho - Homenagem aos 70 anos do Sr. Lucien (2001)

Fundador do MIAN, foi autor de diversos livros sobre a arte naïf, escritos com a inspiração advinda de sua paixão e de sua vasta coleção de obras de arte deste gênero. Foi a sua paixão pela arte naïf que o levou a doar parte de sua coleção particular para a realização do MIAN, que abriu as portas em 1995.

Lucien nasceu em Paris em 1931 e veio para o Rio de Janeiro aos 16 anos com dois tios que aqui moravam, com a intenção de ficar apenas alguns meses e voltar para sua cidade natal. Ele conta no livro Rio de Janeiro Naïf: “Essa volta (definitiva) jamais aconteceu, pois há mais de cinquenta anos, feliz vítima de sucessivas paixões, eu vivo o encanto, o privilégio e a alegria de morar no Rio de Janeiro”.

Estabeleceu-se aqui como um renomado designer de jóias e teve peças suas presenteadas para personalidades como a Rainha Elizabeth II, a atriz Marlene Dietrich e Sarah Kubitschek, primeira dama do presidente Juscelino Kubitschek.

Dono da célebre frase “Uma paixão não se explica, vive-se. Assim é minha paixão pela pintura naïf”, que serviu de inspiração para Jorge Amado escrever o prefácio do livro Brasil Naïf.

No texto abaixo, o saudoso fundador do MIAN, Lucien Finkelstein (1931-2008) fala sobre sua paixão pela arte naïf, como começou a colecionar, a criação do MIAN e nos apresenta sua definição sobre o que é a arte Naïf.

 

Lucien Finkelstein por ele mesmo

 
Uma paixão não se explica, vive-se. Assim é a minha paixão pela pintura naif.

Como toda paixão que se preza, começou com um amor a primeira vista. Quando eu era ainda adolescente, comprei meu primeiro quadro naif sem conhecimento de causa, por simples intuição e sentimento.

Essa paixão, que já se prolonga por quatro décadas, só fez crescer com o tempo. E, cada vez mais, me sinto surpreso, tocado, maravilhado e frequentemente fascinado diante dessa arte que, como a própria vida, se renova com cada pintor e a cada dia, trazendo sempre um sabor de aventura e encantamento.

Quando penso na pintura naif, continuamente diferente e renovada, lembro-me dos belos versos de Paul Valery: “La mer, la mer! Toujours recommencee …”.

Durante todos esses anos tive o prazer e a alegria de descobrir muitos pintores e até de tornar alguns deles reconhecidos internacionalmente.

A palavra naif, do francês, pode ser traduzida por ingênuo, primitivo. Essas três palavras devem ser consideradas no seu verdadeiro sentido, ao pé da letra. Todos derivam do latim: NAIF vem de NATIVUS – o que nasce, o que é natural; ingênuo vem de INGENUS – nascido livre e primitivo, de PRIMITIUS – que pertence ao primeiro estado de uma coisa. Por meio dessas palavras, poderíamos quase definir a própria pintura naïf: aquela que é natural, livre e pura.

O termo Naif, na época em que foi lançado era um apelido, da mesma maneira como em outras épocas os pintores foram batizados de impressionistas, fauvistas, cubistas, futuristas, surrealistas, etc.

Os pintores que fazem esse gênero de pintura também foram chamados de outras maneiras: pintores de domingo, primitivos, ingênuos, primitivos modernos, autodidatas, primitivos de hoje, instintivos, espontâneos, etc.

Mas, afinal, que pintura é essa?

A rigor, não se pode dizer que exista uma pintura naif, mas que há pintores naifs, pois cada um deles é um mundo em si e absolutamente diferente de todos os outros.

Já que, em princípio, eles são autodidatas, cada um tem a sua maneira própria de pintar. Como, em geral, não aprenderam a desenhar, a pintar, não seguiram nenhuma escola, aprendizado ou academia, eles têm que encontrar tudo sozinhos: da estética à técnica. E aí está a sua força, pois assim podem pintar com liberdade absoluta, sem preocupações de regras, sem complexos nem constrangimentos. Eles podem ousar tudo. São os poetas-anarquistas do pincel.

Como conseqüência disso, o pintor Naif é o artista mais sincero, mais puro, o mais capaz de emocionar. Ele nem sabe que é um pintor: pinta como pode e é só. O verdadeiro pintor naif é um poeta que nos emociona com a candura do olhar que pousa sobre aquilo que pinta: a realidade, o cotidiano, seus sonhos, suas visões.

Através de suas pinturas, somos levados a verdadeira origem da arte, ao gostar de um quadro simplesmente, sem procurar explicá-lo ou compreendê-lo.

Como bem disse André Gide: “um quadro é uma superfície para emocionar”. E aí se encontra a essência da pintura Naïf: emocionar, fazer sonhar. Os pintores naifs pintam com o coração e, por isso, é preciso ver seus quadros mais com o coração do que com os olhos.

A arte Naïf, na verdade, pode ser encontrada na própria origem da arte. Poderíamos dizer que os primeiros pintores naïfs foram os homens pré-históricos, que há dezenas de milhares de anos encheram as paredes de grutas como a de Lascaux, na França, de touros, cavalos, cervos, bisões, numa pintura tão variada e tão bela que valeu a gruta de Lascaux o nome de “Capela Sistina da Pré-História”. Desde então, os pintores naïfs continuaram a existir e a marcar sua presença em todas as épocas e em inúmeras formas de expressão.

A redescoberta da arte Naïf foi, por assim dizer, uma consequência natural da arte moderna. Como o Fauvismo, o Cubismo, o Expressionismo, as deformações e outras técnicas faziam parte das pesquisas dos pintores modernos, que também sentiam necessidade de apagar tudo, de esquecer o que tinham aprendido nas academias para recomeçar do zero.

Foi assim que Gauguin se exilou na Oceania para “reaprender a pintar com os primitivos”. Picasso, depois Modigliani  e muitos outros, recorreram a arte negra. Era uma necessidade de recomeçar tudo, de retomar as coisas em bases mais verdadeiras, mais puras. Uma verdadeira “volta às origens”.

Por isso, a arte moderna “descobriu” a arte naif graças ao gênio do pintor Henry Rousseau, o “Douanier”. Sem nunca ter saído de Paris, usando apenas sua imaginação, ele pintava florestas de um exotismo  impressionante e quadros que, sob uma aparente simplicidade, revelavam uma arte nova, original de um vanguardismo que só foi reconhecido bem mais tarde.

Hoje em dia sabemos que Picasso, considerado o revolucionador da arte do século XX ao pintar seu histórico quadro “Demoiselles Dávignon”, que data de seu período “negro”, em 1907, teve que levar em conta o pintor  Rousseau. Vinte anos antes, em 1887, ao pintar “La Bohemienne Endormie”, Rousseau fez um quadro, no seu estilo, tão revolucionário, escandoloso e agrevissamente moderno quanto o de Picasso.

A partir do Douanier Rousseau, isto é, do início do nosso século, a pintura Naïf passa a ter seu lugar ao sol, a ser reconhecida, valorizada e cada vez mais apreciada. A arte moderna não pode mais desconhecê-la. Como diz o pintor Matisse: “A arte moderna é uma arte de invenção. No seu início, trata-se de um arroubo do coração. Portanto, por sua própria essência, ela está mais próxima das artes arcaicas e primitivas, do que da arte do renascimento”.

Aqui no Brasil, porém, país que é um verdadeiro celeiro de pintores Naïfs, as coisas não foram fáceis. Basta lembrar que muitos dos pintores naïfs entre nós foram descobertos por estrangeiros que aqui viviam e souberam valorizar o que esses pintores faziam. É o caso de Chico da Silva, descoberto pelo suiço Jean-Pierre Chabloz, Paulo Pedro Leal lançado por Jean Boghici, Miranda e tantos outros.

Mas, no exterior, a pintura Naïf  brasileira é reconhecida e prestigiada. Jamais, em toda história da pintura brasileira, tantos artistas foram expostos, reproduzidos em livros, comentados ou citados como exemplo, como o são hoje em dia nossos pintores Naïfs.

Não há uma só exposição internacional importante, e retrospectivas, em que pintores naifs brasileiros não sejam convidados a participar e convidados unicamente por critério de qualidade, de originalidade e de mérito pessoal. Ao mesmo tempo, em todos os museus internacionais dessa arte, a pintura brasileira está representada por vários artistas.

Exemplo significativo do valor que se atribui a pintura Naïf brasileira e o fato de que, o único pintor brasileiro a ser premiado na mais importante exibição de arte contemporânea foi Francisco Domingos da Silva, o Chico da Silva, ganhou com a sua pintura, uma menção honrosa na 33a. Bienal de Veneza, em 1966. Outro artista brasileiro a ter conseguido nessa mostra foi Aldemir Martins, como desenhista, na 28a. Bienal de Veneza , em 1956.

Por todos esses fatos, podemos dizer que os pintores naifs brasileiros – por seu número e por sua qualidade – são os verdadeiros porta-bandeiras da pintura nacional fora de nossas fronteiras.

Mas, para voltar a minha paixão pela pintura naïf, que de início era mais brasileira, ela logo se tornou internacional. A medida em que viajava pelo mundo inteiro, a procura de pintores naïfs ampliou-se. De Lhebline, na Iugoslávia, berço de naïfs famosos como Generalic e Rabuzin, passando por Xi-An na China, que além de fantástico exército terracota possui uma comuna agrícola que já é celebre por pintores naifs, até Marrakech, no Marrocos, ou Katmandu, no Nepal, a busca era sempre a mesma: onde estão os pintores Naïfs desse lugar?



Às vezes era difícil encontrá-los: não compreendia a língua, não me fazia entender. Então, valia tudo: mostrar reproduções de outros Naïf, mímica, experimentar palavras afins: primitif, naivni, popular, etc. A pesquisa incluia antiquários, feiras, “souks”, mercados, centros de artesanato e outros.

Aos poucos a coleção foi aumentando. Com minhas viagens, consegui quadros de muito países e várias épocas. Constituí, assim, ao longo dos anos, quase sem me dar conta, uma coleção com mais de mil quadros. Do século XVII até nossos dias, que por si só poderia constituir uma pequena história da arte naïf.

Continuando a procura de novas descobertas, de novos talentos – o último deles é de uma senhora polonesa, de 87 anos, que vive na França -, vi-me diante de dois problemas. Um de ordem prática: onde guardar essa colação sempre crescente? E o outro, um problema de consciência: seria justo que esses quadros fossem apreciados apenas por mim, pelos parentes e amigos? Afinal, cada dia mais se reconhece a pintura Naïf como um dos pilares da pintura moderna. Seria egoísmo de minha parte manter esses quadros no âmbito de uma colação particular?

Foi então que surgiu a idéia de fazer um museu de arte Naïf, doando esses quadros para constituir a base do acervo. 

Conhecendo quase todos os museus de arte naïf do mundo, percebi a grande lacuna que existe no Brasil nesse sentido. Nossa arte não tem ainda um espaço que a valorize e permita aos brasileiros entender porque é tão bem acolhida e admirada no exterior. A “convivência” dos quadros dos nossos artistas com os dos estrangeiros, por sua vez (já que o museu será internacional), seria mais um ponto de reflexão e comparação.  [N.E.: O texto é de 1988, o MIAN inaugurou em 1995]

Ao começar a classificar meus quadros por épocas, países e – no caso do Brasil, por estados – descobri que esse futuro museu de arte Naïf será o mais importante do mundo, pelo número e variedades de quadros. Não perco a esperança de que, uma vez em funcionamento, venha a se impor também pela qualidade de suas obras.

A descoberta desse fato encorajou-me mais ainda a continuar a coleção e, na medida do possível, completar suas lacunas.

Ao fazer essa exposição, numa primeira etapa, e ao realizar o MIAN, em seguida, considero estar saldando uma dívida de reconhecimento para com essa cidade maravilhosa, que como o Cristo Redentor, me acolheu de braços abertos quando aqui cheguei, aos dezesseis anos. Vinha como turista e nunca mais saí daqui. Também foi um caso de amor a primeira vista, que já dura quarenta anos. Foi aqui, nessa cidade que adoro, que passei o resto da adolescência e cumpri todas as etapas da minha vida.

Graças a esse país e a seus habitantes, tão generosos com os estrangeiros, tive a oportunidade de conquistar tudo o que um homem pode desejar na vida. Sucessos esportivos na juventude, vida afetiva, mulher, filhos, netos, amigos em todos os meios e, enfim, o sucesso profissional acima de qualquer expectativa.

Nunca me cansarei de repetir que devo tudo ao Rio, ao Brasil, aos brasileiros. Se conseguir embelezar um pouco mais nossa cidade maravilhosa ao lhe oferecer essa atração cultural, nada mais será do que devolver uma parcela ínfima de tudo que recebi dela… Eu me sentiria o mais feliz dos homens.