Arte e Artistas

Amazônia Feérica- Chico da Silva, 1964

O dicionário diz que naïf é aquilo que retrata simplesmente a verdade, a natureza sem artifício ou esforço: que é graciosamente inspirado pelo sentimento. O adjetivo francês naïf vem do latim nativus, que significa nascente, natural, espontâneo, primitivo. Assim, pode ser substituído também por ingênuo e primitivo. Essas definições poderiam servir para caracterizar a pintura naïf, que é natural, livre e pura. (FINKELSTEIN, 2001).

O termo “Arte naïf” surgiu através do apelido que foi usado para designar tanto a pintura quanto a personalidade de Henri Rousseau em 1890, um pintor autodidata admirado pela vanguarda artística dessa época, que incluía gênios como Picasso, Matisse e Brancusi, entre outros. Rousseau foi o primeiro naïf moderno a ser exposto e valorizado, considerado o pai da arte naïf por Lucien Finkelstein.

A partir da obra de Rousseau a crítica passou a considerar os artistas e obras não oriundos de movimentos artísticos ou escolas de arte, como de grande interesse, devido a originalidade, pureza e técnicas não formais presentes nas pinturas.

Para o escritor francês Marcelo Proust, “Aquilo que vocês chamam de pintura naïf é o sonho de um sonho” (FINKELSTEIN, 2001). A arte naïf autoresa-se em surgir por toda parte e em existir sem nada exigir.

“A pintura naïf nada mais é que a ingenuidade em sua expressão mais autêntica, uma realidade ativa, vinda diretamente das profundezas de nossa vida ancestral. A pintura naïf pode ser considerada a arte mais direta, mais sincera e menos entravada pelas convenções. “ (Anatole Javovsky apud FINKELSTEIN 2001).

Os artistas mencionados abaixo foram citados no livro “Brasil Naïf. Arte Naïf: testemunho e patrimônio da humanidade”, de Lucien Finkelstein Editora Novas Direções. Rio de Janeiro: 2000

 

AGOSTINHO DE FREITAS

 
Nasceu em 1927, em Campinas-SP. Era eletricista antes de começar a pintar, em 1950. Vendia suas telas nas ruas quando foi descoberto pelo crítico de arte Pietro Maria Bardi, que o lançou e promoveu sua carreira artística. Daí em diante, expôs muito no Brasil e no exterior. Seu tema preferido era a grande cidade, que pintava com minúcias, realizando grandes reportagens poéticas sobre o cotidiano das metrópoles, principalmente São Paulo. Agostinho se tornou um dos nossos melhores naïfs urbanos e expôs no exterior, com grande sucesso.
 

Alba Cavalcanti

 
Itabaiana-PB, 1941. Trabalhou como datilógrafa no serviço público e mudou-se para o Rio de Janeiro em 1965, em busca de cursos de especialização. Começou a pintar em 1984, inspirada por uma cinza de cigarro caída no papel, que lhe sugeriu uma forma. Participou de diversas exposições internacionais, inclusive da INSITA 94, como parte do acervo do MIAN lá exposto. Em 1996, realizou uma exposição individual no MIAN, como parte do Projeto Os futuros grandes da arte naïf. Uma obra sua, no contexto da parceria MIAN/TELEMAR, ilustrou um cartão telefônico, em 1998, o “Dia da baiana do acarajé”. A pintura dessa grande artista evoca, de modo pitoresco, o realismo da vida cotidiana com um humor dos mais cândidos.
 

Aparecida Azedo

 
Nasceu em Brodósqui-SP, em 1929. Operária agrícola, militante comunista, desenhava e pintava desde jovem. Veio para o Rio de Janeiro em 1950, onde se casou e teve seis filhos. Freqüentou o curso livre de pintura de Ivan Serpa no Museu de Arte Moderna. Começou a expor em 1973. Seus temas prediletos são a fauna e a flora brasileiras, demonstrando um amor infinito pela natureza. Sua carreira internacional se iniciou em 1994, quando participou, com outros artistas do acervo do MIAN, da INSITA 94, Trienal Internacional de Arte Naïf em Bratislava, Eslováquia, e teve seu quadro “Amazônia” escolhido para capa do catálogo da exposição que reunia artistas naïfs de 21 países. Ainda em 1994, participou, junto com outros artistas do acervo do MIAN, da exposição “Naïfs brasileiros de hoje” em Frankfurt, Alemanha. Em 1997, foi de novo selecionada para a INSITA 97, em Bratislava, Eslováquia. É autora do maior quadro naïf do mundo: Brasil, cinco séculos, 1992/1995, de 24m x 1,40m, que retrata a história do Brasil em uma linha do tempo desde o Descobrimento até a inauguração de Brasília. O cineasta Zelito Viana realizou o filme: Aparecida Azedo, uma vida em 24 quadros, em 2005.
 

Bebeth

 
Nasceu em Niterói-RJ, em 1939. Arquiteta especializada em urbanismo, começou a pintar em 1988, sempre com temas populares e poéticos, como o circo, bandas de música, paisagens rurais. Fez sua primeira exposição individual no MIAN, em 1996. O frescor e a intensa poesia que suas telas exalam sempre nos deixam com o coração alegre e um sorriso nos lábios.
 

Chico da Silva

 
Filho de índio peruano com uma brasileira, nasceu em Alto Tejo, no Acre, em 1910. Foi autodidata até nos materiais que empregava. Já morando em Fortaleza, em 1937, cobria os muros e as paredes dos barracos de pescadores com seus animais fantásticos pintados com carvão, terra, argila vermelha e folhas esmagadas que misturava com óleo para obter as cores desejadas. Foi descoberto por Jean-Pierre Chabloz, artista suíço, quem lhe ensinou a pintar com tintas e pincéis. Chabloz o lançou na Europa e assim Chico da Silva participou de várias exposições por lá, o que rendeu ao artista o recebimento da “Menção Honrosa” de pintura na 33ª Bienal de Veneza, em 1966, sendo o único artista brasileiro a ser premiado nesta categoria de pintura. Produziu intensamente até morrer, usando de início guache e depois tinta a óleo. Participou de inúmeras exposições no Brasil e no exterior.
 

Crisaldo

 
Nasceu em 1932, em Recife. Além de pintor, Crisaldo foi um colecionador e incentivador de novos artistas naïfs. Formado em economia, trabalhou em banco, morou em Nova Iorque e foi comissário de bordo em rotas internacionais. Começou a pintar na década de 70 e logo teve o reconhecimento da crítica: em 1972 ganhou o primeiro prêmio num concurso mundial de naïfs realizado na Suíça. Esteve sempre à frente dos movimentos de divulgação e valorização da arte naïf brasileira, promovendo exposições no Brasil e no exterior. Seus temas preferidos são as divindades do candomblé e as mulatas brasileiras em todo o seu esplendor. Pintou acrobatas, equilibristas, jogadores de futebol e outros temas com um estilo meticuloso e original. Foi citado no Dicionário dos pintores naïfs do mundo inteiro, por Anatole Jakovsky, como sendo “incontestavelmente, o melhor pintor naïf brasileiro”. Nos últimos anos de vida voltou a viver em Recife, onde pretendia criar um museu de arte naïf, sonho que não chegou a realizar.
 

Dalvan

 
Rio de Janeiro-RJ, 1966. Especialista em robótica, trabalhou em plataformas de petróleo antes de pegar nos pincéis, a partir da década de 80. Sua temática do cotidiano urbano e de crítica social é muito original. Em 1994, junto com outros artistas do acervo do MIAN, participou da exposição “Naïfs brasileiros de hoje” em Frankfurt, Alemanha. Em 1997, foi selecionado para participar da INSITA 97, Trienal Internacional de Arte Naïf, em Bratislava, Eslováquia. Um quadro seu ilustrou o item “Saúde” do anuário “Brasil em números 97”, do IBGE. Realizou exposição individual no MIAN, em março de 1997, dentro do Projeto Futuros grandes da arte naïf.
 

Elza O. S.

 
Nasceu em Recife-PE, em 1928, e mudou-se para o Rio de Janeiro vinte anos depois, onde trabalhou como bordadeira e cabeleireira, e estudou teatro e canto lírico antes de começar a se dedicar à pintura, em 1964. A maioria de seus quadros representa o indivíduo, em todas as situações. Noivas, santos e santas são seus temas prediletos. Tem um sólido currículo internacional e é citada em enciclopédias e livros sobre arte naïf. Expôs muito no Brasil e no exterior. Junto com outros artistas do acervo do MIAN, participou da INSITA 94, Trienal Internacional de Arte Naïf, em Bratislava, Eslováquia. Em 1999/2000, o MIAN realizou sua exposição individual “Uma pintora da alma”, dentro do Projeto Grandes nomes da arte naïf.
 

Ermelinda

 
Nasceu em 1947, em Fortaleza-CE. Foi modelista e bordadeira antes de começar a pintar. Vive no Rio de Janeiro desde 1962. Começou a pintar em 1994, de forma autodidata, e já participou de inúmeras exposições. Tem uma imaginação ilimitada, a serviço de um colorido caleidoscópico. Em 2005, o MIAN realizou sua exposição individual “Uma força me leva a pintar” dentro do Projeto Naïfs do nosso Brasil.
 

Fuzinelli

 
Nasceu em Jurupema, São Paulo, em 1948. Autodidata, começou a mostrar os seus trabalhos somente em 1980 e logo foi reconhecido pelo público e pela crítica. Em suas pinturas, há um toque de humor ingênuo e seus temas preferidos são a vida rural, lendas e assombrações do interior. Participou de diversas exposições individuais e coletivas, principalmente em São Paulo. Em 2000, teve uma obra de sua autoria reproduzida em um cartão telefônico, em uma parceria MIAN/TELEMAR. O MIAN realizou sua exposição individual “Um caipira de raiz”, em 2005, dentro do Projeto NAÏFS DO NOSSO BRASIL.
 

Gilvan

 
Nascido em 1930, iniciou sua carreira artística por meio da música. Formou um conjunto vocal, o Trio Iraquitã, que se lançou em Natal, Rio Grande do Norte, onde passou parte da juventude. O trio viajou por toda a América Latina e participou de vários filmes nacionais. Começou a pintar em 1972 e expunha na feira de artes da Praça General Osório, apelidada de Feira Hippie, a qual já exportou grandes nomes da arte naïf para o mundo. Em 1973 fez a primeira exposição. A partir de então, sempre ligado às suas raízes nordestinas, retrata cangaceiros, santos e figuras do folclore. Participou de muitas exposições no exterior. Um quadro seu ilustrou o tópico “Participação política” do anuário “Brasil em números 97” do IBGE. Em 1998, realizou a exposição individual no MIAN, “Um pintor que canta e encanta”, dentro do Projeto NAÏFS DO NOSSO BRASIL.
 

Gerson

 
Recife-PE, 1926. Começou a pintar desde cedo. Ao vir para o Rio de Janeiro, em 1947, teve uma breve passagem pela Escolinha de Arte do Brasil. Carteiro aposentado, é um pintor de temas urbanos, mas de um urbano “íntimo” e popular. Retrata os marinheiros e prostitutas vistos na infância e os personagens do rico folclore nordestino. Participou de inúmeras exposições internacionais e é citado em livros e enciclopédias estrangeiras sobre arte naïf. Dois quadros seus serviram para ilustrar tópicos no anuário “Brasil em números 97”, do IBGE. Já teve três cartões telefônicos produzidos pela parceria MIAN/TELEMAR: “O rei do maracatu”, em 1998, “Virgulino”, em 1999, e “Mamulengo”, em 2000. O MIAN organizou uma retrospectiva pelos seus 50 anos de pintura, em 1997 e a exposição “Gerson: um poeta do pincel”, em 2002, dentro do Projeto Grandes nomes da arte naïf.
 

Grauben

 
(1889-1972) Cearense de Iguatu, Grauben começou a pintar com setenta anos de idade, em 1959, quando se aposentou de seu emprego como funcionária pública municipal. Como autêntica naïf, criou o seu próprio estilo e se tornou uma das naïfs mais originais. Pintava plantas, flores, borboletas e pássaros, que coloria com toques “pontilhistas”, sem delimitar os espaços. Expôs pela primeira vez em 1961 e tornou-se um sucesso nacional e internacional. Participou da várias exposições no Brasil e no exterior e das VII E VIII Bienais de São Paulo, em 1965 e 1967.
 

Henri Rousseau

 
Henri Rousseau, também conhecido como “Le Douanier” (que em francês quer dizer Fiscal alfandegário) nasceu na França, em Laval, em 1844, e morreu em Paris em 1910. Ele nunca exerceu essa profissão, era simplesmente um empregado do “Octroi” de Paris, encarregado de taxar os artigos que entravam na cidade.

Homem simples e autodidata, Rousseau encontrou sozinho seu caminho artístico. Antecipou sua aposentadoria em 1893 para poder se dedicar à pintura. Estreou em Paris em 1886 no Salão dos Independentes, junto a todos os futuros grandes nomes da pintura moderna, e foi nessa época que se tornou conhecido.

Rousseau, sem se dar conta, plantou os alicerces da futura arte naïf moderna.

Sem precisar ir à Polinésia em busca de novas inspirações, como fez Gauguin, Rousseau exercitava sua inspiração em Paris, isolado no seu quarto e no Jardim Botânico que frequentava. Apenas com a sua imaginação, fazia surgir nas telas, de modo magnífico, uma simplicidade que não podia ser mais primitiva. Em pleno movimento revolucionário impressionista, Rousseau caminhava sozinho para um modernismo mais profundo, para a volta às origens – que a verdadeira Arte Moderna só reconheceria mais tarde –, fazendo dela então a sua regra de conduta.
A influência exercida por Rousseau sobre a arte do século XX, e a sua contribuição ao abrir novos horizontes aos grandes pintores do modernismo, foi comparada àquela que tiveram seus contemporâneos da geração pós-impressionista.

Apesar do desprezo de certos críticos, Rousseau logo foi defendido e admirado por pintores como Odilon Redon, Pissarro, Gauguin, Toulouse-Lautrec. E em seguida por Picasso, Matisse, Signac e toda a geração dos grandes artistas de vanguarda que se seguiram.
O douanier Rousseau foi alvo de muitas zombarias relacionadas com sua arte, sem jamais levá-las a sério, com a serenidade e o orgulho daqueles que sabem o que fazem.

Segundo Apollinaire: “O Douanier tinha a consciência de sua força. Uma ou duas vezes deixou escapar que era o melhor pintor de seu tempo. E é possível que, sob vários aspectos, ele não estivesse muito enganado!”

Picasso foi o revolucionário da arte do século XX com o quadro pintado em 1907, Les Demoiselles d´Avignon (As Moças de Avignon). Mas Rousseau, dez anos antes, ao pintar La Bohémienne Endormie (A Cigana Adormecida), foi tão revolucionário, escandaloso e agressivamente moderno quanto Picasso.

A diferença é que Rousseau não pretendia revolucionar coisa alguma, somente se aprofundava em sua pintura, surpreendendo com sua simplicidade que anunciava uma arte de vanguarda.

Foi nos últimos anos de vida que Rousseau pintou seus quadros mais extraordinários, firmando-se como um dos maiores pintores da história contemporânea. O pintor Robert Delaunay, um de seus primeiros defensores e colecionadores, escreveu: “Henri Rousseau representa o gênio do povo francês.”

Vinte anos após a sua morte, seus quadros valiam fortunas, e a maioria deles, reconhecidos como autênticas obras-primas, entrou nos acervos dos mais importantes museus do mundo, como o Louvre, o d´Orsay e o MoMa.

 

Kléber Figueira

 
Nasceu no Rio de Janeiro. Advogado, começou a expor em 1968. Sua pintura enternecedora traz poesia ao banal e encontra a inocência original do mundo. Pintava as pessoas simples do povo, com cores características e muito humor. Expôs muito no Brasil e no exterior. Em 1994, junto com outros artistas do acervo do MIAN, participou da exposição “Naïfs brasileiros de hoje” em Frankfurt, Alemanha.
 

Lia Mittarakis

 
Nasceu na Lapa, Rio de Janeiro, em 1934, mas viveu quase toda sua vida na Ilha de Paquetá. Apaixonada pelo Rio de Janeiro, Lia pintou a cidade de todos os ângulos possíveis. É autora de um dos maiores quadros naïfs do mundo, de 4m x 7m, representando uma vista panorâmica do Rio de Janeiro até as ilhas vizinhas, que está em exposição permanente no MIAN. Passou a expor no Brasil e no exterior e em 1992, durante a ECO-92, um de seus quadros foi capa da Time Magazine, de Nova Iorque. Em 1993, foi eleita para a Academia de Belas Artes, o que fez dela a primeira naïf imortal do Brasil. Foi também a primeira artista naïf do país a possuir um marchand estrangeiro, em Nova Iorque. Na parceria MIAN/TELEMAR foram produzidos três cartões telefônicos com quadros seus: “Verão em Paquetá”, em 1998, “Dia de festa” e “Independência”, ambos em 1999. A capa do Manual do Vestibular da UERJ no ano 2000 é ilustrada pelo seu quadro da primeira missa no Brasil.
 

Miranda

 
Nasceu em 1907, em Maceió, Alagoas. Passou por um começo de vida difícil. Com o primário incompleto, Miranda costurou sacos de açúcar, foi pescador, estivador e ajudante de pedreiro. Começou a pintar aos 61 anos, e teve um ritmo de produção intenso. Sua imaginação fértil e o colorido intenso se espalham por quadros com temas desde os de inspiração rural até os urbanos, passando pelas festas folclóricas, o Carnaval, as cenas místicas e religiosas. Logo alcançou sucesso nacional e internacional. Sua última exposição individual aconteceu em 1988, no Museu Internacional de Arte Naïf Anatole Jakovsky, em Nice, França. Mostra infelizmente póstuma, tanto para Miranda quanto para Jakovsky. Em 1994, recebeu a Menção Honrosa da INSITA 94, Trienal Internacional de Arte Naïf, em Bratislava, Eslováquia com os quadros enviados pelo MIAN para a exposição. Foi convidado a participar da INSITA 2000, na Mostra Especial dos artistas premiados nas Trienais anteriores.
 

Pedroso

 
Crato-CE, 1935. Vive em Salvador desde 1955. O desejo de pintar foi despertado quando trabalhou numa firma que possuía galeria de arte. Autodidata, começou a se ensaiar na pintura e a vender os primeiros quadros. Expôs pela primeira vez em 1963 e participou de diversas exposições nacionais e internacionais. Em 1980, foi homenageado com uma retrospectiva de seus vinte anos de trabalho numa galeria de Salvador. Pinta os temas do cotidiano com um pincel ingênuo e observador, empregando belas cores para mostrar a religiosidade das multidões.